Como disse Tarcísio de Freitas, “A eleição passou”.

 Como disse Tarcísio de Freitas, “A eleição passou”.

(*Matéria atualizada, ajustada e corrigida à que saiu no domingo (01) no jornal físico)

Uma semana e meia após a reeleição do presidente Lula da Silva, o Brasil vai precisar invocar o sistema de freios e contra pesos para retomar à normalidade plena depois de uma campanha de baixo nível, que abraçou o vale tudo, em que ambos os lados deixaram de fora o script institucional e, ao invés de propostas para o futuro do País, escolheram lançar mão de um arsenal de acusações para desconstruir a imagem do outro.

Mas é preciso entender que a locomotiva, que nos últimos seis meses esteve a todo vapor puxando os vagões recheados de escândalos e denúncias, parou no domingo, 25. Foi desligada e aposentada. Nem apitar vai mais — virou sucata destinada à ferrugem.

E isso porque o povo fez sua escolha, colocando um ponto final em qualquer tipo de discussão. É simples, inequívoco e sentencial: o brasileiro optou pela permanência do governo atual; não pela mudança. Ponto.

O governador Tarcísio de Freitas, aliado e apoiador do candidato da oposição derrotado, Flávio Bolsonaro, foi direto e cirúrgico após o resultado do pleito: “A eleição passou“. Agradeceu ao senador, valorizou os quase 60 milhões de votos, mas olhou para frente. E como pra quem sabe ler um pingo é letra, se colocou como opção para 2030 na disputa pela Presidência.

Para alguns o pronunciamento foi visto como oportunista e apressado. Outros lembram que Tarcísio esteve o tempo todo ao lado de Flávio. Foi fiel ao filho de Jair Bolsonaro e lançou-se na campanha a plenos pulmões. Mas, como governador reeleito com expressiva votação no principal estado do Brasil, tem todo o direito de pleitear o próximo degrau: o Palácio do Planalto.

Se é cedo ou tarde, se deveria esperar a poeira assentar ou algo parecido, são outros 500. No mundo real, em que ‘rei morto, rei posto‘, o momento é pertinente. E que outro nome da oposição, hoje, reúne melhores condições do que ele?

Isso, para não falar que lá atrás, quando se discutia quem iria disputar com Lula, muitos defendiam que deveria ser ele, Tarcísio, e não Flávio. Mas também isso são águas passadas. É necessário esperar os desdobramentos adiante. Mas hoje, a embrionária, digamos assim pré-postulação de Tarcísio, faz sentido.

“Lula não prometeu ajuste
fiscal e ‘pacificação’ do País.
Não faz sentido cobrá-lo por?
isso. A pacificação não foi
contratada pela sociedade.
Eleito, no 1º discurso, Lula
falou que derrotou o
‘milicianismo’ e o fascismo
e que governaria com o
exército do Janones”
(FERNANDO SHULLER
    Cientista político)

O tempo seguinte de um País dividido

Vale registrar que política-eleitoral tem suas peculiaridades. Nos EUA, o eleitor que elegeu o democrata Obama também elegeu o republicano Trump. Depois, optou por Biden para, ato contínuo, retomar com Trump. Não é matemática. O Brasil é um País continental, que se reinventa e supera dificuldades graças ao imenso potencial. Foi assim que em 2014-2015, livrou-se de uma recessão provocada pelo desgoverno Dilma e reergueu-se às portas da depressão.

Hoje, temos uma País dividido, que gasta mais do que arrecada, sem equilíbrio fiscal, com as famílias endividadas, com grandes grupos empresariais em dificuldades e que terá que enfrentar as consequências das medidas eleitoreiras tomadas semanas antes da eleição — inclusive entre o 1º e o 2º turnos — indisfarçavelmente para vencer o pleito. 

Porém, como um novo amanhecer, o Brasil vai olhar, mais uma vez, para o dia seguinte e superar — é certo que com sacrifícios — os desafios que lhe serão impostos.

“Mais uma vez,
Alexandre de Moraes
deu vazão à sua índole
autoritária e se precipitou,
a não ser que a PF tivesse
informações de que o
plano de fuga estivesse
sendo armado”.
(MERVAL PEREIRA 
O GLOBO – 30/10)

Flávio — A carta que fechou portas

Menos pela fuga, como tem sido considerada, e mais — muito mais — pela carta, Flávio Bolsonaro, hoje, está fora do jogo político. Sendo jovem e, como em se tratando de política, de certo só mesmo a incerteza, poderá voltar a figurar no cenário. Mas, por ora, não.

A carta em que se autoproclamou “o verdadeiro presidente do Brasil” e o “presidente eleito” foi muito mais que um tiro no pé. Questionar o resultado das urnas sem apresentar provas e não reconhecer a vitória do oponente passam à margem do sistema democrático. Assim, acabou entregando de bandeja aquilo porque sempre foi acusado.

O quadro como um todo, entretanto, estará melhor formado, com maior nitidez e cores mais fortes, daqui a algum tempo. A História nos mostra, em inúmeros exemplos, que só o tempo coloca as coisas nos devidos lugares. Isso, quando coloca. O Brasil, por exemplo, ainda revisita fatos históricos dos anos 30, 40 e 50 — Era Vargas. O ‘Agosto de 54’ guarda questionamentos… e por aí segue.

A fuga — Então, voltando à eleição de 2026, a mais baixa e suja do Brasil, a despeito do que aconteceu e como tal irrefutável, há espaço para especular:

1) Dois ou três dias após o resultado, Flávio fugiu num esquema meticulosamente planejado que envolveu despiste de rotas e jatos. Logo, se não houve improvisação, a decisão de sair do Brasil foi anterior à cautelar do ministro Moraes, determinada 7 minutos após a apuração, portanto precipitada e que alimenta o discurso de perseguição ao proibir sua saída do País.

2) Mas por que, com todas as pesquisas apontando sua vitória, ele planejaria fugir?

3) Teria achado que mesmo se tivesse sido eleito presidente seria preso? Curioso!

4) Informações de apoiadores presentes à reunião de segunda (26) disseram que Flávio estava em pânico com a possibilidade de prisão. Então, como se explica ‘pânico’ se a fuga já estava preparada nos detalhes?

5) E, se não estava, como se montou em 24 horas um esquema que envolveu a Argentina, os EUA, agentes, vários carros para dificultar rastreamento, três jatinhos, etc.? 

É muita coisa para digerir em 10 dias. 

“Ao mandar apreender
os passaportes de
Flávio sem a prudência
exigida pelo caso, Moraes
ofereceu ao senador uma
narrativa de perseguição
política e agravou a
desconfiança sobre o STF”
(OPINIÃO DO ESTADÃO – 
29 de Outubro/26)

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